Ismael Romeu e Julieta Acácia

25 ago

Ismael era moço alto, magro e ruivo. Muito tímido, não gostava muito de conversa. Mas era um “rapaz trabalhador”, como dizia sua tia Elza, que o criou depois que sua mãe morreu, assassinada, quando o menino tinha sete anos. Seu pai era uma incógnita até para sua mãe. Jamais o conheceu.

Nunca gostou muito de estudar, freqüentou o colégio até a quinta série e, logo após, entrou para as aulas de mecânica da associação de moradores do bairro, onde aprendeu o oficio e, desde então, tira o seu sustento. Não era “mulherengo”, continuava tia Elza. “Sabem que cheguei a pensar coisas, se não fosse uma vez que ele apareceu em casa com uma negrinha”.

A negrinha era Acácia. Menina que morava na frente da oficina. Na época, Ismael acabava de completar dezoito anos e ela treze. Acácia morava somente com o pai, pois a mãe estava presa “pra mais de anos”. Depois de devidamente apresentados, o namoro começou. “Bom moço, trabalhador” comentava o pai da menina. “Pelo menos arranjou uma namorada” sussurrou a tia do rapaz.

Os dois gostavam de caminhadas. No final da tarde, o Ismael pegava na mão da Acácia e os dois se iam a passear pelas ruelas apertadas. Andavam horas. Ela falava bastante e ele só ouvia. Vez em quando um “aham” pra dar andamento ao assunto. E era só. O rapaz sempre foi muito reservado, mas parecia que a menina não ligava para isso. Como ela tinha o dom de falar, gostava de ter ao seu lado alguém tão prestativo para ouvir. Ao final do passeio, o pombinho devolvia a pombinha em sua casa, dava um abano para o sogro, um beijinho na testa dela e seguia para casa. E assim se passaram três anos. Até que um dia os passeios cansaram o Ismael.

Era uma tarde de outubro. Como fazia todos os dias, Ismael passou em frente à casa de Acácia que já o espera para a caminhada até o pôr-do-sol. Naquele dia ele, estranhamente, veio sorrindo. Mas não era um sorriso tímido, como de costume, era um “entredentes” diferente. Agradável. Ele trazia algo em sua mão. Parecia ser um pequeno estojo, “como aqueles da escola”, pensou a menina. Talvez certa do que poderia ser, sorriu para ele e pegou em sua mão, pois a caminhada prometia ser inesquecível.

Um pequeno filme se passava na cabeça de Acácia, enquanto ele contava os passos em silêncio, apenas observando o fim de tarde. Imaginava como seria uma casinha branca, vivendo ao lado de um homem “bom e trabalhador”, com seus dois filhinhos a brincar “um na sala e outro no pátio”, pensava. Vislumbrava um casamento na associação, com todo mundo presente e ponche à vontade, acompanhado de muita dança. Há dias sabia que o Ismael tinha lá umas economias, mas nunca havia falado em morarem juntos. Aliás, “ele não falava nada” nunca.

– Onde vamos? – Perguntou a menina.
– Ali. – Respondeu Ismael, apontando para a pracinha que ficava do lado de lá do bosque.

Ela já começa a pensar nos convidados. Afinal, dentro daquele estojo, poderiam estar as alianças que selariam o compromisso entre os dois. Aquele passeio (mais demorado que o costume) era, sem dúvida, diferente. Foram três anos de espera e hoje seu destino de mulher estaria estampado em seu vestido e os desejos da carne e da alma poderiam ser colocados em um único e singelo estojinho de pano, nas mãos de seu bom moço. Pararam na praça.

Ismael fez um sinalzinho para que ela sentasse. Olhou rapidamente nos olhos da namorada e, de pé, abriu o zíper do estojo. Ela cerrou os olhos por um instante para preparar o sorriso. Ele apanhou o pequeno punhal enferrujado e, num único e certeiro golpe, não deu chances para o grito de Acácia. Abriu sua garganta e a deixou ali, no chão da praça a olhar as primeiras estrelas daquela linda noite de céu aberto e calor enquanto ela, com a mão no corte, tentava, em vão, puxar o ar para dentro de seus pulmões. Rapidamente parou de se debater. Morreu com os olhos abertos e com uma perna dobrada abaixo do quadril.

Ele guardou o punhal e voltou caminhando, calmamente, pelas vielas. Só tomou o cuidado de não passar na frente da casa do sogro. Ismael era tímido, ele não gostava de responder perguntas.

Texto de Luiz Henrique Dias.

Luiz é um blogueiro solitário, contista nas horas vagas, ator e professor de química por formação, dramaturgo e arquiteto em dois anos, com um grande amor profissional: Miró…

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